Flach: “Se continuar, em menos de 20 anos os botos cinza estarão em extinção”

(Por Juliana Torres e Bianca Garcia)

Saltantes, carismáticos e sociáveis. É impossível falar em animais marinhos e não mencionar os simpáticos golfinhos. Com um jeito encantador, estes animais provocam fascínio e curiosidade em crianças e adultos. Mas o que poucos sabem é que a maior concentração de botos-cinza do mundo fica na área da Baía de Sepetiba, no Rio de Janeiro, com mais de 1,2 mil botos. Tanto na entrada como na saída, é possível observar grupos com mais de 100 indivíduos, que se localizam nos arredores da Ilha de Jaguanum, em Itacuruçá, distrito de Mangaratiba, Costa Verde do Rio.

O Instituto Boto Cinza (IBC), um dos maiores projetos de conservação e preservação da espécie, tem postado constantemente em sua rede social da Internet o recolhimento de carcaças de botos. De acordo com o biólogo Leonardo Flach, fundador do IBC, se a mortalidade desses animais continuar, os botos cinza correm sério risco de extinção. Ainda segundo ele, a principal causa da morte desses animais é a falta de fiscalização da pesca ilegal.

O Portal O Rio conversou com o biólogo para saber mais sobre esta triste realidade que envolve os botos cinza. Leia, na íntegra, a entrevista com Leonardo Flach:

De julho até agora, o IBC contabilizou 14 botos mortos. O que este número significa?
Significa que tivemos uma média de sete botos/mês. Entre 2005 e 2009, tivemos uma média de 1,5 botos/mês no mesmo período. De 2010 a 2013, esse número aumentou para três botos/mês.  Já de 2013 a 2014, tivemos um aumento de mais de 100% na mortalidade que já é considerada insustentável.

Quais são as principais causas de morte?
Os botos estão morrendo em redes de pesca artesanal e pesca ilegal de traineiras e atuneiros. As principais causas são a falta de uma Unidade de Conservação Marinha, fiscalização da pesca ilegal e aumento de empreendimentos portuários. A falta de um ordenamento das atividades portuárias, fiscalização da pesca ilegal e aumento das dragagens diminuem o habitat dos botos e a área de pesca artesanal, aumentando o conflito entre pescadores artesanais e os botos cinza.

Por que a pesca de arrasto é uma ameaça aos animais marinhos?
O maior crime ambiental que ocorre o ano todo na Baía de Sepetiba são os atuneiros, arrastões e traineiras que ilegalmente pescam os peixes que são a base da cadeia alimentar. Sem as sardinhas e manjubas, os peixes maiores não entram mais na Baía.

A pesca de arrasto é uma ameaça principalmente para os animais marinhos de hábito bentônico (vivem no fundo ou perto do substrato marinho), são vários invertebrados e peixes como o linguado. No arrasto do camarão, por exemplo, estima-se que para cada um quilo de camarão pescado, 15 quilos de peixes e outros organismos marinhos são devolvidos mortos aos mares.

Para comparar, há uma estimativa da população existente de botos cinza de 2013 e 2014?
Não temos os resultados ainda, mas já sabemos que atualmente morre cinco vezes mais botos que o limite para manter a população estável. Até agora, em 2014, já recolhemos 40 botos mortos e o limite seriam oito botos retirados da população por causas não naturais.

Se a mortandade dos botos cinza continuar nesta proporção, em quanto tempo esta espécie poderá ser extinta no Rio de Janeiro?
No final de 2014 iremos completar 10 anos de monitoramento dos botos mortos e infelizmente parece que passaremos o número de 250 botos recolhidos, atualmente já são 241 botos. Se continuar a taxa de mortalidade que se encontra hoje, sete botos/mês, em menos de 20 anos esta população estará em vias de extinção.

No Rio de Janeiro, onde temos a maior presença de botos cinza?
Não é por acaso que o Rio de Janeiro tem em seu brazão dois botos, pois na Baía de Guanabara existiam centenas deles, mas que, infelizmente, não passam de 40 botos. No estado, temos hoje concentrações na região, na foz do rio Paraíba do Sul (Atafona e Farol de São Tomé), e nas três baías costeiras. Sendo a Baía de Sepetiba a que abriga a maior população já registrada para a espécie, com mais de 1,2 mil botos.

Onde há o maior índice de mortandade destes animais?
Acreditamos que, no Rio de Janeiro, a Baía de Sepetiba hoje possui a maior taxa de botos mortos por ano.

Quando o IBC recolhe as carcaças e faz a autópsia, que tipo de objeto estranho é encontrado dentro do animal?
Até hoje não encontramos lixo no estômago de botos, mas isto é frequente nas tartarugas marinhas.

No caso dos filhotes mortos, qual a causa?
Na maioria dos casos, a mesma causa dos adultos: a captura acidental nas redes de pesca. Em alguns casos encontramos os filhotes com lesões de pele e nenhuma marca de rede, o que indica que a morte foi por alguma doença.

Como os humanos podem evitar a mortandade destes animais?
O Projeto Abrace o Boto-Cinza trabalha hoje em três pilares: pesquisa, educação ambiental e políticas públicas. Estamos conscientizando os pescadores artesanais e, mais que isso, começamos a dar alternativas de renda com o turismo de observação dos botos. O que buscamos é acabar com o conflito entre o boto cinza e a pesca artesanal. Mas isto depende também de fiscalização da pesca ilegal e criação de Unidade de Conservação Marinha.

Felizmente hoje temos o apoio do Ministério Público Federal que está cobrando do Inea (Instituto Estadual do Ambiente) e Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) a fiscalização da pesca na Baía de Sepetiba e as devidas compensações ambientais que até hoje não foram para compensar o ecossistema marinho.

*Foto Capa: Reprodução Facebook/Instituto BotoCinza

 

About Juliana Torres

Co-fundadora do Portal O Rio, Juliana Torres administra, edita e produz conteúdo para o site e para as redes sociais. A jornalista, que é pós-graduada em Gestão Estratégica da Comunicação, já passou por assessorias de comunicação e redações de jornais impressos.

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