Hora de deixar o carro na garagem

(Por Vinicius Palermo)

Para celebrar o Dia Mundial Sem Carro, celebrado na próxima terça-feira (22), a equipe do Portal O Rio ouviu especialistas e preparou uma série de reportagens que joga luz sobre a questão da mobilidade urbana e utilização de veículos não motorizados como meio de transporte no Rio de Janeiro.

Embolados no caótico trânsito da cidade do Rio de Janeiro – pesquisas colocam a cidade entre as 10 piores do mundo no assunto –, brigam por um centímetro de asfalto caminhões, ônibus, carros, motocicletas e bicicletas. Infelizmente, a corda quase sempre arrebenta do lado mais fraco e o prejudicado na maioria das vezes é o ciclista. Segundo especialistas em mobilidade urbana, são feitas diariamente cerca de 1,5 milhão de viagens de bicicleta no Rio de Janeiro.

Para aumentar este número e fazer com que os usuários de bicicleta deixem de sofrer o calvário diário nas ruas, ações realizadas nos últimos anos objetivam incentivar o uso da bicicleta e conscientizar a população de que o transporte sustentável, não motorizado, é a solução para o trânsito das grandes cidades. Nos dias 20, 21 e 22 deste mês, a sociedade carioca poderá participar de várias dessas ações, durante o BiciRio – 5º Fórum Internacional da Mobilidade por Bicicleta.

No dia 20, na abertura do BiciRio, será realizada a 28ª edição do Um Dia Sem Carro, que faz parte da Semana Nacional de Trânsito e do Dia Internacional da Paz. O domingo será de caminhada, corrida solidária e, é claro, um festivo passeio ciclístico. A novidade deste ano é que o passeio será intermodal, com a participação de mil patinadores que se juntarão aos cerca de 20 mil ciclistas que devem participar do evento. Durante quatro horas, de 8h a 12h, o Aterro do Flamengo será tomado por atividades relacionadas ao uso de meios de transporte não motorizados, como skate, bicicleta e patins.  Para o presidente da Federação de Ciclismo do Estado do Rio de Janeiro (Fecierj), Claudio Santos, a questão ambiental tem grande importância na realização de um evento como esse.

“O carro é o grande vilão do século XXI, responsável por 70% do monóxido de carbono despejado na atmosfera. Vamos pagar um preço muito alto por conta disso. Então essa é a bandeira”, explica Claudio.

Na segunda-feira, dia 21, o Hotel JW Marriot, em Copacabana, na Zona Sul, sediará palestras e debates do fórum, de 9h às 17h15, com a participação de representantes do governo de diversas cidades, tanto brasileiras quanto do exterior, ativistas, ciclistas, especialistas em mobilidade urbana e meio ambiente e empresários. O subsecretário Municipal de Meio Ambiente, Altamirando Moraes, conta o que está previsto para o dia 22, quando será celebrado o Dia Mundial Sem Carro.

“No dia 22, nós faremos uma visita técnica dez quilômetros de ciclovia que estão sendo construídos na região de Laranjeiras e Cosme Velho, na Zona Sul”, conta Altamirando.

Caminho longo

A meta da prefeitura do Rio de Janeiro é encerrar o ano de 2016 com 450 quilômetros de malha cicloviária, o que coloca a cidade como a líder no assunto na América Latina. A situação, no entanto, ainda está muito longe do ideal e a uma distância quase abissal de cidades como Amsterdã e Kopenhague, consideradas referências na mobilidade urbana por bicicletas. Na capital holandesa, por exemplo, cerca de 80% das viagens diárias são feitas com a utilização de bicicletas, enquanto que no Rio de Janeiro este número está em 5%, apesar de existir uma meta para dobrar este índice. Para o presidente da Fecierj, o Rio está no caminho certo: “Se começarmos a mudar nosso conceito e a forma de se comportar, o Rio de Janeiro tem tudo para se transformar em uma nova Amsterdã. Isso também tem que partir da Prefeitura, do governo. Amsterdã mudou porque o prefeito mudou. Ele acreditou em uma nova Amsterdã. Em pouco tempo percebemos que a cidade se humanizou pelo uso da bicicleta”.

Presidente da Comissão de Segurança de Ciclismo do Rio de Janeiro (CSCRJ), Raphael Pazos pede licença para utilizar do neologismo para citar uma “cicloculturalização” da população fluminense. Para ele, apesar do uso da bicicleta como modal ser um tema ainda recente no Brasil, aos poucos está se tornando parte do cotidiano dos cariocas.

“O Rio está evoluindo muito, todo mundo fala em bicicleta. Vários shoppings utilizam a bicicleta como propaganda. Quantas camisas têm bicicletas estampadas? No Centro existe o bike café, que guarda a bicicleta das pessoas que vão trabalhar com o veículo. A legislação já diz que empreendimentos novos obrigatoriamente precisam ter bicicletários”, conta Pazos, empolgado.

Presidente da Transporte Ativo, organização da Sociedade Civil voltada para a qualidade de vida por meio da utilização de veículos movidos à propulsão humana, José Lobo acredita que o Rio de Janeiro vai evoluir, já que as autoridades já começaram a pensar no planejamento da cidade para as bicicletas.

“Há cidades europeias planejadas para bicicletas há 50 anos, outras cidades o fazem há 20 anos e no Brasil ainda estamos no começo. A compreensão da bicicleta como efetivo modal de mudança nos transportes de curta e média distância e alimentador do transporte de massa ainda não é bem compreendida pelos administradores públicos. Em alguns anos, novas gerações estarão nestes postos e a coisa naturalmente mudará. As mudanças são irreversíveis, as bicicletas e seus similares, vieram para ficar no ambiente urbano”, explica.

Respeito e educação

Apesar de muita gente desconhecer essa informação, a bicicleta está incluída no Código de Trânsito Brasileiro (CTB), o que faz com que motoristas, ciclistas e pedestres tenham regras para seguir. No entanto, na prática, não há fiscalização e a falta de harmonia impera, transformando a missão de pedalar nas ruas em um verdadeiro desafio.

Para o presidente da Fecierj, Claudio Santos, o caminho é seguir os exemplos de países da América do Norte e da Europa, que deixaram a segregação de lado e criaram vias compartilhadas. No entanto, ele ressalta que por aqui a tarefa se apresenta mais árdua.

“Aqui no Brasil, se você não segrega, cria o conflito, pois falta educação, falta respeito, falta equilíbrio das pessoas na questão de querer chegar antes. Querem chegar mais cedo e nessa hora colocam a vida do outro em risco”, afirma.

Raphael Pazos, presidente da CSCRJ, pede que todo mundo faça a sua parte para que a harmonia no trânsito seja estabelecida e acredita que as campanhas de conscientização realizam um trabalho importante neste sentido, mas ressalta que é preciso punição para quem comete infrações.

“A questão é que a criança é educada, o adulto é conscientizado. Junto com a campanha da conscientização tem que ter a campanha punitiva. Se ele não sofrer no bolso não vai mudar”, ressalta.

De olho no futuro

Dentro dos cerca de 150 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas que a prefeitura pretende implementar até o fim de 2016, estão duas de visual paradisíaco. Uma na Avenida Niemeyer, que liga o Leblon a São Conrado, na Zona Sul e outra no elevado do Joá, que liga São Conrado à Barra da Tijuca e está sendo ampliado. Para Claudio Santos, será preciso policiamento ostensivo na região.

“A gente espera que tenha um efetivo da Guarda Municipal, da Cet-Rio e do batalhão de Polícia Militar da região, para que essas ciclofaixas e ciclovias e todo esse investimento não seja jogado ralo a baixo, transformando o espaço em um elefante branco pela péssima ocupação em relação a falta de segurança”, avisa.

Para o subsecretário de Meio Ambiente, Altamirando Moraes as campanhas de conscientização e as mudanças nas leis estão tornando a bicicleta mais visível para as forças de segurança. “O policiamento está melhorando. A bicicleta também era invisível para a polícia. Com a legislação e com mais gente usando a bicicleta, o nível de policiamento aumenta. Tem melhorado a vigilância, a polícia e a Guarda Municipal já utilizam a bicicleta circulando na orla e em algumas ruas e no aterro do flamengo”, conclui.

Pouca celebração e muita atitude

O Dia Mundial Sem Carro, celebrado na terça (22), é realmente uma data importante, principalmente para conscientizar a população. Mas, para alguns, o dia não deixa de ser, de fato, apenas uma data. Para Fabio Garcia, de 35 anos, empresário e morador de Campo Grande, Zona Oeste do Rio, o “esquecimento” do automóvel não acontece apenas nos dias 22 de setembro. “No meu caso, o Dia Mundial Sem Carro é apenas uma data, já que sempre utilizo a bicicleta no meu dia a dia”, disse Garcia, que hoje, somado à idade, já tem os 20 anos de ciclismo.

O empresário acredita ser a data um grande incentivo para quem não tem esse hábito de “esquecer” o carro em casa, mas, para ele, a bicicleta é quase sempre a primeira opção. “Hoje a bicicleta não é apenas um meio de transporte, faz parte do meu lazer diário e a utilizo sempre quando preciso me locomover em uma distância pequena, onde de carro, seria um grande tempo perdido. Percursos de longa distância somente nos fins de semana”, conta Garcia.

Mas, para quem tem a bicicleta como meio de transporte, esporte e lazer, há também alguns incômodos, que, inclusive, tornam-se explicações para o fato de a bicicleta ainda ser uma opção rara quando o carro está por perto. “Falta educação entre as pessoas que não sabem compartilhar a mesma via, incentivo por parte do governo que facilita a venda dos carros e dificulta a comercialização de bicicletas com seus altos impostos e falta também infraestrutura em ciclovias pela cidade. O apelo do carro é muito grande entre as pessoas, que olham o carro como ‘status’ e não como um meio de transporte como a bicicleta”, concluiu o empresário.

About Portal O Rio

O Portal O Rio é um portal de notícias online e independente. Criado em julho de 2014, o site tem como objetivo informar sobre o que acontece no Rio de Janeiro.

Check Also

Batons metálicos: entre nessa moda você também

Sucesso há alguns anos, os batons metálicos voltaram com tudo! Mas, calma! Apesar de ser …

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.