Entenda por que clínica na Barra da Tijuca tem exames que custam a partir de R$ 5

(Colaborou Bianca Garcia)

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Em entrevista ao Portal O Rio, Marco Collovati conta como começou o Laboratório Sangue Bom (Fotos: Juliana Torres/Portal O Rio)

Ele não é brasileiro, mas é o típico gringo “sangue bom”. E foi a partir desta gíria, genuinamente carioca, que o italiano Marco Collovati se baseou para dar início a um sonho de quando ainda era estudante de medicina: um laboratório popular que pudesse atender pessoas de diferentes classes sociais. Responsável pelo Laboratório Sangue Bom, que realiza exames a partir de R$ 5, Collovati é médico e cirurgião geral e vive no Brasil há quase 20 anos. Segundo ele, o amor e a gratidão pelo nosso país foi a grande motivação. Aliado a isso, o desafio de um melhor atendimento em saúde o fez dar início a este projeto. “Eu sou um guerreiro e um guerreiro tem que estar onde está a guerra e se estiver na paz ele vai ficar em depressão. Eu preciso estar onde as pessoas precisam de mim. Quando eu precisei do Brasil ele fez muito por mim, agora está na hora de eu retribuir”, disse Collovati em entrevista ao Portal O Rio.

COMO TUDO COMEÇOU

Ainda jovem, o italiano chegou ao Brasil com o plano de ser um famoso e rico cirurgião plástico.  “Eu queria fazer escola de Pitanguy [Ivo Pitanguy é cirurgião plástico, professor e escritor brasileiro, membro da Academia Nacional de Medicina e da Academia Brasileira de Letras e é referência mundial em cirurgia plástica]. Só que minha carta de apresentação para entrar na escola de Pitanguy não serviu para nada e, portanto, me encontrei em um país desconhecido sem saber falar o idioma, sem nenhuma conexão”, contou Collovati.

Junto à decepção, vieram as incertezas e a dificuldade financeira. Foi nessa época que o médico italiano morou na favela Pavão Pavãozinho, em Copacabana, e trabalhou, de graça, na na cirurgia geral da Santa Casa de Misericórdia. “Acho que foi ali que comecei a ter uma visão diferente da vida. Porque ficar na Itália, em Florença, cidade do Renascimento, onde tudo é bonito, tudo é histórico, é uma coisa. De repente me vi em uma realidade que não era a minha. Uma realidade onde você pega um ônibus às 5h para ir a um hospital que atende apenas as pessoas muito fragilizadas da sociedade e quando volta para descansar fica em um conjugado, que para passar do corredor para o banheiro tem que passar por cima da cama, e de noite começa a ouvir tiroteio, que naquela época o morro não era pacificado como é agora”, relembra.

SOLIDARIEDADE

Com a vida corrida e pouco dinheiro, o médico conta que comia muito cachorro quente na rua e espetinhos de carne. Devido à má alimentação, o italiano teve diarreia, vômito, desidratação e, por não conhecer ninguém no Rio de Janeiro e com pouco conhecimento da língua portuguesa, não tinha a quem pedir ajuda. Após 10 dias sem conseguir sair de casa, uma vizinha (que nunca havia falado com ele antes) bateu em sua porta e falou: “gringo, muito tempo que não te vejo, o que aconteceu?”. E foi neste momento que ele, ao abrir a porta de casa e ver o semblante daquela senhora após percebê-lo magro e muito abatido, se deu conta da generosidade humana e do espírito coletivo da comunidade: “Ela voltou com canja, água e, na comunidade, se espalhou a voz ‘o gringo está doente’, ‘vamos ajudar o gringo’. E os vizinhos faziam o que podiam para me dar um conforto, se não material, pelo menos moral. Isso me marcou, porque eu claramente fiquei bom”.

UMA CARREIRA DE SUCESSO

Após anos de dificuldade no Brasil, o médico italiano se associou a um cirurgião plástico e, recebendo mais recursos financeiros, se mudou para um apartamento no Flamengo. Inquieto, Collovati desejava retribuir com algo que causasse um impacto social. Foi desse desejo que surgiu o Laboratório Sangue Bom. “No Sangue Bom, ao contrário de todos os grandes grupos de laboratórios de exames de sangue do Brasil, nós optamos por fazer laboratórios nos quais é necessário ter um padrão de atendimento digno para qualquer classe social, uma qualidade internacional e utilizamos equipamentos e materiais de excelência, depois agregamos valores para facilitar a qualidade de vida das pessoas, como o aplicativo, a transmissão em tempo real”, explicou o médico ao afirmar que a linguagem do site também é simples, mas que também recebe atenção. “A gente faz melhorias nele quase que mensalmente”, explicou.

LABORATÓRIO SANGUE BOM

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São sete laboratórios em funcionamento em apenas pouco mais de dois meses e, segundo Collovati, objetivo é crescer ainda mais

O laboratório fica na Barra da Tijuca, mas, de acordo com Collovati, há pacientes de todas as regiões do Rio: “Infelizmente, e tenho que dizer infelizmente, atendemos pessoas que vêm de vários lugares do Rio. Digo infelizmente porque gostaria que todos tivesse acesso à saúde sem precisar se deslocar de suas cidades ou bairros. Hoje atendemos pessoas de Belford Roxo, Duque de Caxias, Niterói… Eles fazem um cálculo e veem que mesmo tendo custo com transporte, para eles é melhor vir até aqui. E outros, que moram em comunidades e periferias, e que têm laboratório a preços menores, dizem que não sentem a confiança que sentem em nosso laboratório”. A qualidade no atendimento e a excelência no atendimento são prioridades para o italiano. “A gente trabalha com referência na tabela SUS. Exatamente para criar uma nova polêmica: por que nós que trabalhamos com tabela SUS conseguimos dar esse atendimento e essa qualidade e o SUS não consegue? O Sangue Bom tem um modelo diferente do SUS, do plano de saúde, do laboratório privado e da saúde que nós temos hoje. Porque a saúde que nós temos é a mesma saúde que vai ter meu filho, minha filha, teu filho”, comentou.

De acordo com Collovati, já são sete laboratórios em funcionamento em apenas pouco mais de dois meses. E o objetivo é crescer ainda mais. “Quando eu falo que vão ter cinco mil ‘Sangue Bom’ espalhados pelo Brasil as pessoas riem de mim. Podem rir, fiquem à vontade. Mas eu já calculei. A gente precisa mesmo de cinco mil ‘Sangue Bom’ espalhados pelo território brasileiro. E é isso que vou fazer, pelo menos até quando eu morrer”, concluiu o médico italiano.

About Juliana Torres

Co-fundadora do Portal O Rio, Juliana Torres administra, edita e produz conteúdo para o site e para as redes sociais. A jornalista, que é pós-graduada em Gestão Estratégica da Comunicação, já passou por assessorias de comunicação e redações de jornais impressos.

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4 comments

  1. Parabéns doutor!! Deus sempre retribui o bem á quem faz o bem.

  2. Nunca vi um laboratório assim,Deus o abençoe por isso. Tenho vergonha de ser brasileira e precisar que um estrangeiro venha ter essa disponibilidade e aqui ninguem faz isso. Pelo contrário quem deve fazer principalmente para os assalariados não encontra nada disso.. So diz assim : O laboratório ainda não abriu porque está em conserto, o enfermeiro ainda não chegou,assina aqui, dá uma rúbrica aqui e etc, etc, etc. nO FINAL DO MÊS VC É DESCONTADO DO SEU SALÁRIO,POUCO MAIS E.OBRIGADA DOUTUR.

  3. Parabéns dr Sangue bom ,Deus te de muita saúde e vida para olhar pelos menos favorecidos!!

    Parabéns

  4. Realmente uma atitude muito nobre ,parabéns!!”
    Gostaria de poder trabalhar nessa rede tão humanitária mesmo que seja voluntaria ,sou técnica de laboratório tem emprego mas quero poder contribuir com um jesto tão gratificante de amor ao próximo.

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