O cinema e os regimes ditatoriais

O assunto dos últimos dias tem sido o clamor popular favorável ao impeachement da presidente Dilma. O povo revoltado irá às ruas (quando vocês lerem esse texto, a manifestação já terá ocorrido, pois está marcado para o dia 15/03) contra o governo da atual presidente e os seguidos escândalos que pipocam nas capas de jornais e revistas no Brasil e no mundo.

Eu penso que o povo teve a chance de mudar esse quadro no ano passado, com uma coisinha bem poderosa chamada voto. Mas toda manifestção é válida e deve ser apoiada e respeitada, desde que não comecem com as atitudes animalescas e acéfalas que tanto se repetiram nas grandes manifestações nos últimos anos.

Agora, vamos falar de cinema? Na 7ª arte, vários filmes retrataram golpes políticos e militares ao longo dos anos. Muitos optaram por mostrar os acontecimentos da ótica de um trabalhador comum, de um oprimido pelas consequências da ditadura, de um ditador e até de uma criança.

Um filme que retrata bem a ótica do trabalhador comum, do povo, em geral, é Pra Frente, Brasil! (1982). O filme tem como cerne não só as lutas armadas da ditadura como também o quanto um regime ditatorial afeta a sociedade como um todo, usando uma família de classe média como base. O povo, à época envolto nas comemorações da Copa do Mundo de 1970, fecha os olhos para as torturas que ocorrem bem diante de seus narizes. No entanto, a vida dessa família muda quando um dos membros é confundido com um ativista e some.

Já no quesito oprimido, um ótimo exemplo é Zuzu Angel (2006). Conta a história (bem conhecida até) de Zuzu Angel e seu filho, Stuart. Enquanto Zuzu, famosa estilista, ganhava fama internacional alheia a toda a confusão do regime ditatorial dos anos 1960 no Brasil, seu filho se engaja na luta armada contra os militares. Até que um dia Stuart é capturado pelos militares, fato este desmentido pelos próprios. Pouco tempo depois a notícia da morte do filho chega a Zuzu, que tenta encontrar o corpo mesmo e promover um enterro digno, o que provoca a ira dos militares.

Na visão de um ditador, eu destaco Chove sobre Santiago (1976). O filme conta a história do dia 11 de setembro de 1973, quando o então general Augusto Pinochet percebendo a eminência da explosão política-social de Santiago, invade as ruas da cidade dando inicio ao golpe de estado brutal e violento. O mais interessante do longa é a forma como ele mostra a participação (mais do que provada) da CIA no golpe, em todos os sentidos possíveis.

E por último, na visão de uma criança destaco o excelente O ano que meus pais saíram de férias (2006). No auge da ditadura, o garoto de 12 anos Mauro tem de encarar as férias repentinas de seus pais, ficando então com seu avô. Porém, as férias nada mais eram do que uma fuga dos pais, então perseguidos políticos, para não serem capturados e mortos por militares. Com o avô com graves problemas de saúde, Michel acaba sendo deixado com um senhor judeu solitário enquanto espera a volta de seus pais. A ótica inocente de uma criança no meio do caos da ditadura militar é retratada com maestria no longa, fazendo um excelente contra peso com a brutalidade da época.

About De olho na 7ª arte

Jonathan Miranda é carioca, mas não gosta de praia e ama frio. Criador e gestor do portal PlayStorm, jornalista por formação, amante da 7ª arte e apavorado por estar chegando aos 30 anos.

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