As quatro artes de Christiana Ubach

Christiana Ubach volta em agosto para a telinha. A atriz brasileira faz parte da série "O Hipnotizador", da HBO (Foto: Divulgação)
Christiana Ubach volta em agosto para a telinha. A atriz brasileira faz parte da série “O Hipnotizador”, da HBO (Foto: Divulgação)

Psicóloga, atriz, diretora e escritora. Essas são as quatro performances de Christiana Ubach na vida real. Embora para muitos ainda seja a eterna Cris de “Malhação”, novela juvenil da Rede Globo, Christiana Ubach já respirou novos ares, dentro e fora da telinha, viajou para receber prêmio e para fazer novos trabalhos. A atriz, que aos poucos se distancia do Rio de Janeiro, contou tudo isso em entrevista exclusiva ao Portal O Rio. Além de esbanjar talento e simpatia, Christiana Ubach recebeu a reportagem com muita receptividade, mesmo via Skype, já que agora vive em São Paulo.

Leia a entrevista completa:

Você é psicóloga, certo? Quando se viu artista e decidiu explorar este teu lado profissional?

Na verdade eu me formei psicóloga já atriz. Eu colei grau e fui para a Amazônia no dia seguinte… Mas eu sempre dancei, faço balé desde os oito anos de idade… E foi procurando uma atividade física nova, que eu não conseguia ficar sem, que eu achei uma aula de treinamento físico para ator. Me levaram para fazer essa aula experimental e por acaso era dentro de um curso de TV e cinema e aí eu falei: essa atividade é perfeita, porque você mexe com o corpo, com respiração, com emoção e, como eu estudava psicologia, eu ainda estava me pesquisando. Eu achei maravilhoso e a partir daí a coisa aconteceu. Me chamaram para ficar nesse curso de Artes Cênicas, que é no Rio, e em menos de um ano e meio eu já estava trabalhando e aí eu nunca mais larguei.

Assim que eu entrei para a psicologia eu estava na dúvida do que fazer e Teatro não era uma das minhas opções. Eu achava que eu ia trabalhar com RH [Recursos Humanos], fui fazendo vários cursos de RH, psicanálise infantil… Usei um ano da faculdade para entender a área que eu ia seguir… Acabou que Artes Cênicas era uma coisa que juntava o conhecimento da psicologia, dessa ciência, com a parte corporal, da dança, minha infância, que era o que eu mais gostava de fazer.

Você chegou a atuar como psicóloga ou apenas leva essa formação contido nas tuas outras formações, como atriz, escritora e diretora?

Acabou que eu não consegui, porque quando era para começar nos estágios eu já estava trabalhando. Me formei em bacharel e acabei indo para o lado acadêmico, da pesquisa.

Antes da Cris, de “Malhação”, você interpretou a Flora em “A Favorita”. Quem foi a Flora e a Cris para você?

A Flora foi importante para eu entender como era aquilo tudo. Imagina… Eu nunca tinha feito nada na televisão e de repente eu estava lá fazendo uma personagem com uma cena super difícil, que a gente tinha que pular, tocar violão, trezentos figurantes… Uma loucura, foi tudo no susto e pra se jogar… Depois daquilo nada foi assustador (risos). E a Cris foi um presente. Presente assim… A gente rala pra caramba, estuda pra caramba… Eu trabalhava de segunda a sábado, na verdade domingo também porque era quando eu tinha que ler o texto.  Mas foi muito legal! Foi legal por conta disso, de aprender a fazer televisão nessa correria de estúdio, de fazer 40 cenas e a gente fechar… Mas também pela sensação de equipe… Fora que ela era uma mocinha muito gostosa de fazer. Ela era brava, reclamona, verdadeira, ela não era boba mas era inocente. São atributos meus também que foi bem gostoso exercitar…

Agora uma pergunta que talvez já esteja cansada de responder, mas é necessário (risos). Como foi lidar com o assédio estando ao lado de Fiuk?

É engraçado falar sobre isso hoje… Malhação a gente não esquece. A coisa fica… Dia desses eu estava no posto de gasolina e o rapaz virou pra mim e disse: “Você não vai fazer outra novela não?”. E eu acabei de fazer outra novela (risos)… Bem, eu entendo essa coisa do Fiuk, Fábio Junior… Mas Malhação já é um estouro… O assédio específico dali é porque o público é adolescente. Não tem papas na língua, eles falam, eles te abordam, não tem vergonha, ficam nervosos… Eu já lidei com o assédio de outras formas, mas ali é muito específico.

E a Ludmila de “Felizes para Sempre”? O que você tem a nos dizer sobre a personagem e seu trabalho na telinha de novo…

Foi muito legal porque foi uma oportunidade que o Fernando me deu… A princípio eu ia fazer, depois eu não ia fazer. Ele me deu essa personagem, que foi uma delícia. Eu sou super fã do Enrique Díaz, e a cena que contracenei com ele foi deliciosa. Eu sou apaixonada pelo trabalho dele… E foi maravilhoso ter conhecido o Fernando Meirellles. Ter trabalhado com Paola Oliveira, muito dedicada, muito querida, muito companheira. Foi um trabalho legal de fazer também pelas pessoas envolvidas.

Foi legal também porque eu estava filmando para outro trabalho no Uruguai e fiz ao mesmo tempo. Em “Felizes para Sempre” foram três diárias em três meses. E lá no Uruguai fiquei 10 dias, voltei pra cá e depois fiquei mais 10 dias. Era de época e minha personagem era super dramática, perturbada, tinha trauma com o pai dela… E aí eu cheguei em São Paulo fazer a Ludmila, “ir pra jogo” assim (risos). Foi legal fazer dois trabalhos ao mesmo tempo e ser assim tão discrepantes.

E sem dúvida a vivência do “Felizes pra Sempre” e esses dois trabalhos ao mesmo tempo, na verdade esse momento de trabalho depois que sai de “Além do Horizonte”, foi uma coisa muito definidora na minha vida, que me fez vir morar em São Paulo…

Aí está… Você é carioca. Por que exatamente decidiu sair do Rio e viver em São Paulo? 

É pra falar a verdade? O que você quer ouvir? (Risos) Na verdade eu me considero uma carioca fajuta, porque eu fui criada na serra, em Itaipava. Eu não tenho os laços, assim, tão fortes com o Rio de Janeiro. Eu sou ligada à natureza, meu pai é fazendeiro… A saída do Rio não teve esse peso como as pessoas acham que tem, pra mim.

A verdade é que em São Paulo as pessoas trabalham diferente, têm um outro posicionamento. Eu tinha projetos que só vi a possibilidade de acontecer em São Paulo. O projeto “Reticências Arbitrárias” é um exemplo. É um projeto que eu tenho há quatro anos e no Rio eu não estava conseguindo pôr adiante.

O Rio de Janeiro depois da Copa está um absurdo… Está tudo muito maluco… Eu acho que o Rio de Janeiro está passando por um momento delicado… Eu já passei por tudo no Rio de Janeiro, já fui assaltada com uma arma na cabeça… Eu não vou dizer que São Paulo é diferente… Mas… São Paulo me alivia. Eu me considero muito uma cidadã do mundo e eu acho que São Paulo tem essa coisa, assim, de várias culturas coexistindo. Tem também essa questão do profissionalismo… E você tem muita opção para as coisas, inclusive para se aprofundar mesmo… Resumindo… Aqui eu me sinto mais no mundo, no Rio eu me sinto mais no umbigo da minha mãe…

Em "O Hipnotizador", série que estreia em agosto na HBO, o ator argentino Leonardo Sbaraglia é o companheiro de cena de Christiana Ubach (Foto: Divulgação)
Em “O Hipnotizador”, série que estreia em agosto na HBO, o ator argentino Leonardo Sbaraglia é o companheiro de cena de Christiana Ubach (Foto: Divulgação)

A mudança tem a ver com mais possibilidade que eu consigo enxergar, mais autonomia de trabalho…

Você volta para a telinha esse ano ainda?

Sim… Em agosto estreia “O Hipnotizador”, na HBO. É uma série de oito episódios. Acho que é um dos trabalhos mais lindos que eu já fiz na minha vida… É um elenco que tem uruguaio, argentino, brasileiro e a gente fala português e espanhol… É uma delícia…

Em 2012 você ganhou o prêmio de melhor atriz em Portugal pelo filme “Boa sorte, meu amor”. O que este prêmio significou para você? Foi o seu primeiro prêmio internacional?

Foi o primeiro internacional e nacional… Eu não fui premiada no Brasil e fui premiada em Portugal. Foi muito significativo porque foi um ano que eu viajei muito com o filme “Boa Sorte”. Eu voltei para o Brasil e voltei para lá no fim do ano para ir para o festival. Vou te falar a verdade do que significou este prêmio pra mim… Eu fui sozinha para esse festival, porque o diretor e o produtor estavam em Cuba, e eu levei 17 kg de rolo na minha mala. Foi muito legal porque eu falei: caraca, vou poder contar isso para os meus filhos. Porque isso já acabou, ninguém mais leva rolo de filme, e eu peguei o final disso. Me senti muito guerrilheira do cinema… E no fim eu não consegui receber o prêmio, porque tive que voltar para o Brasil para trabalhar, em um curta que eu estava fazendo com umas pessoas de cinema da PUC. E foi muito legal também porque depois descobri que o curta foi exibido em Cannes. Mas eu fiquei com uma boa relação lá em Portugal e ano passado eu voltei como júri para o mesmo festival, também foi uma experiência muito legal.

Ano passado (2014) você estreou como diretora em “Cartas de amor ao próximo”. Como foi essa experiência? Como surgiu a proposta da direção?

É um projeto de um amigo meu… Amigo irmão, que é o Breno Motta… Ele é realmente um artista e muito em prol do teatro. Ele trabalha em todas as áreas… Ele produz, escreve, ele atua… É uma pessoa que admiro muito. Ele estava com esse projeto e me chamou para atuar com ele em cena e eu propus o desafio de dirigir… Ele topou e aí ficamos um ano trabalhando nisso. Um projeto bem nosso, não tivemos incentivo nenhum, de nada… Foi muito rico… E foi aí que a psicologia ajudou… A psicologia ajudou muito… Eu precisava enxergar ele com muita atenção, de forma muito delicada. Foi muito importante…

Eu sempre gosto dessa coisa de estar em cena e logo depois fazer um trabalho fora de cena…

A peça “Cartas de amor ao próximo” volta para cartaz este ano?

A gente volta… Mas primeiro vamos pra Juiz de Fora em maio… E depois, provavelmente no segundo semestre, devemos estar por temporada no Rio…

Sobre a oficina que vai ministrar em Brasília. O que são as “Reticências Arbitrárias”? A oficina é uma criação sua?

É… Surgiu enquanto eu estava fazendo “Malhação”… Eu estava trabalhando pra caramba, mas surgiu uma ansiedade criativa muito grande. No meio da novela eu achei que precisava mexer o meu corpo… Nessa época Nietzsche me acompanhou muito durante a faculdade e eu propus para o Fred Tolipan, que tem uma escola de teatro no Rio, um trabalho de pesquisa sem muito saber pra onde que a gente ia… E aí que acabou que a técnica que ele usa é a técnica de exaustão… E aí a gente pegou uma passagem do Nietzsche do “E assim falou Zaratrusta”, que são as três metamorfoses do espírito (camelo, leão e criança) e aí a gente pensou: como é que seria se a gente usasse isso como tema para as performances, como tema de pesquisa corporal? E aí eu acabei criando e falei: bom, e se a gente fizesse um sistema em cima da estrela de Davi, porque até agora temos um triângulo, e se a gente criasse outro, e pudesse transitar. Porque realmente de camelo ninguém vira leão no dia seguinte. O que é necessário passar para passar para próxima fase? E aí surgiram mais três temas… Criamos essa metodologia que é primeiro uma brincadeira de leitura, um sorteio com os verbetes que eu chamo de aquecimento mental e depois a gente vai para o corpo, que aí eu peguei umas coisas minhas corporais da psicologia e até coisas energéticas mesmo… E depois os participantes simbolizam esses temas de acordo com a vivencia que eles tiveram….

E por que Brasília para a estreia deste projeto?

Eu fiz peça lá… Eu fiquei um mês fazendo Dorotéia, em 2012, lá… Tenho amigos do teatro… Na verdade eu adoro Brasília… Os artistas de lá são muito especiais… Eles têm um comprometimento com o estudo e com a pesquisa, eles vão a fundo, coisa que eu não sinto no Rio. No Rio as pessoas cuidam muito do corpo e tudo (até por uma questão mercadológica) e pouca de pesquisa, que eu tenho acesso em Brasília. Mas pretendo levar para outros estados. Já estou com uma companhia de dança em São Paulo e no Rio eu tenho que ver como vai ser… Mas eu tenho vontade.

Seu romance “Zoológico de fogo” será lançado este ano? O que você pode adiantar ou falar sobre a obra?

Tomara, sabia? Eu acho que sim… Ele está pronto, está revisando… Eu consegui fazer uma coisa bem maluca… Eu me internei porque precisava terminar esse livro. Eu fui para a fazenda do meu pai, só vendo a chuva e trabalhando 10h por dia… Não adianta… A história é um fluxo. Se você fica começando toda hora é complicado. O melhor é pegar o embalo e ir.

Escrever é uma coisa que é tipo tirar a roupa. Você se sente mais desnuda… Tem que esperar um tempo pra você não se sentir tão envolvida com a obra… É um tempo de separação, tem um tempo pra ele sair de você…

Tem muita coisa biográfica. Não tem como não ter… Mas tem muito mais as ideias que eu acredito do que história… A estrutura é a seguinte. A história é de uma mulher que marca um encontro consigo mesma para conversar com suas dores, alegrias e agonias. O livro inteiro é um solilóquio. Passando esse primeiro capítulo que tem essas divagações sobre ideias, sobre o que ela está pensando e sobre tudo o que aconteceu até o presente momento da vida dela, ela começa a evocar… E aí são nove homens em forma de bicho. E aí tem muita coisa pra falar (risos). É um zoológico de fogo, porque tudo está acontecendo na fogueira, teoricamente. Ela estava queimando os escritos dela, ela estava num momento de transição… É basicamente isso.

Agora me diz uma coisa: tem algum trabalho que você não faria de jeito nenhum?

Eu não tenho um trabalho que não faria… E não consigo pensar em nada agora que eu não faria, mas sei muito bem maneiras que não trabalho. Exemplo: eu não tenho problema de fazer um trabalho de nu, mas dependendo da maneira que isso seja tratado eu não teria problema em recusar. Entende? É uma questão delicada…

(Foto: Felipe Pilotto)
(Foto: Felipe Pilotto)

Três perguntinhas rápidas para Christiana Ubach:

Teatro, cinema ou TV?

Os três em momentos diferentes.

O que tem em comum entre a Christiana psicóloga, a atriz, a escritora e a diretora?

Uma curiosidade sobre o material humano, o ser humano, e uma vontade de realizar muito grande.

Arte é…

Beleza, essencial, imprescindível! É tão importante quanto política.

About Bianca Garcia

Co-fundadora do Portal O Rio, Bianca Garcia administra, edita e produz conteúdo para o site e para as redes sociais. Com experiência em jornal impresso e mídia social, a jornalista formada pela FACHA é também graduanda de Letras/Literatura pela UFF e pós-graduanda em Gestão Estratégica da Comunicação pelo IGEC.

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One comment

  1. Christiana Ubach é maravilhosa e talentosíssima! Acompanho todos os seus trabalhos!
    Ótima entrevista. Bem feita e muito aprofundada!

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