A arte de narrar pela visão de uma contadora de histórias

Em entrevista ao Portal O Rio, a contadora de histórias Clara Haddad conta sobre seu encontro com a narração e sobre a profissão (Fotos: Divulgação)
Em entrevista ao Portal O Rio, a contadora de histórias Clara Haddad conta sobre seu encontro com a narração e sobre a profissão (Fotos: Divulgação)

“O narrador é a figura na qual o justo se encontra consigo mesmo”. É com esta frase de Walter Benjamin, retirada do texto “O Narrador”, que tem início esta matéria cujas fronteiras se dispersam para homenagear os contadores de história do Brasil e do mundo no Dia do Contador de História, celebrado hoje (20 de março).

Para homenagear os profissionais e este ofício, muito pouco celebrado em tempos virtuais, o Portal O Rio entrevistou a paulista Clara Haddad, que é atriz de formação e “narradora de histórias por vocação” desde 1999. Atualmente Clara, de 39 anos, vive na cidade do Porto, em Portugal, onde fundou a primeira escola de capacitação e treinamento para narradores do país, a Escola de Narração Itinerante, a qual também é diretora, e divide o tempo deste ofício com outros: apresentações, literatura, pesquisa, estudos e, claro, muitas histórias.

Durante a entrevista, Clara Haddad contou ao Portal O Rio que conta histórias para crianças, jovens, adultos, idosos… Conta “para todos que quiserem ouvir” e disse que se há diferença em contar histórias para diferentes públicos, talvez a diferença esteja apenas no repertório. Mas logo conclui: “Na realidade em minha prática nunca senti diferenças… As histórias são para todos!”.

Confira abaixo, na íntegra, a entrevista com a contadora de histórias Clara Haddad:

O que é ser um contador de histórias?

Ser contador de histórias é ser um leitor do mundo, da vida, dos sons, dos silêncios das pessoas… Particularmente, para mim é algo natural, é como respirar! Meus gestos, minha voz, meu olhar estão a serviço das histórias. Ser contadora de histórias é a minha maneira de ser tudo na vida.

Como e quando começou sua história de contadora de histórias?

Desde pequena conto histórias. Sempre fui muito curiosa e gostava de ouvir sobre as pessoas, as culturas diferentes e os lugares. Tive a sorte de ter uma avó que contava histórias e isso foi fundamental para que mais tarde eu quisesse seguir por este caminho. Fiz teatro profissionalmente, mas algo sentia que faltava em mim. Foi quando voltei os olhos e o coração para o que ouvia na infância, comecei a pesquisar mais sobre as histórias tradicionais, as minhas próprias histórias e descobri que existiam pessoas que dedicavam suas vidas a este ofício ancestral.

Assumi-me como narradora e não uma atriz que conta contos. Somei toda a experiência que tive em outras artes ao trabalho que desenvolvo como narradora de histórias e hoje em dia tenho uma escola: a Escola de Narração Itinerante sediada na cidade do Porto em Portugal, onde capacito pessoas que queiram aprender a contar histórias.

Sem dúvida alguma, é esta profissão que me preenche e me faz feliz!

Qual o tipo de história que você mais gosta de contar? Existe essa preferência ou história é história?

Gosto de ler e ouvir todo tipo de histórias, mas em meu repertório está repleto de contos tradicionais árabes, africanos, portugueses e brasileiros. O narrador conta aquilo que gosta, onde se encontra e se identifica. Gosto muito de histórias com suspense e mistério. Histórias politicamente incorretas- em algumas situações- pois acredito que não é preciso viver feliz para sempre em todas as histórias, não é preciso ter só heróis, príncipes e princesas como um modelo de perfeição. Quando contamos todo tipo de história tudo torna-se mais humano, mais real… As histórias com humor também me fascinam, também os contos que falam de sentimentos humanos, de situações que superamos de forma a ter um olhar mais leve sobre a nossa própria vida e a vida dos que nos rodeiam.

Antes de começar uma narração, há alguma preparação?

No meu caso, gosto de estar alguns minutos em silêncio para ouvir o público. Nunca vou com uma apresentação fechada e sabendo exatamente todos os contos que vou contar. Na verdade nunca sei. Na arte de narrar temos que estar disponíveis para ouvir o público e a partir daí eleger aquelas histórias que vão preencher o espaço no momento da narração. Para chegar a este ponto é preciso ter um grande repertório e experiência. Os narradores são como o vinho quanto mais velhos, melhores e mais raros se tornam.

Como as oscilações de humor ou estado de espírito influenciam na sua rotina de contadora de histórias?

Têm dias que podemos estar mais cansados ou tristes ou, ao contrário, podemos estar extremamente felizes e criativos. Penso que com o tempo, aprendemos a lidar e entender todas essas oscilações e estados de espírito e utilizar de forma positiva para nosso trabalho, partilhando isso com o público. Narrar histórias é diferente de fazer uma peça de teatro. Não interpretamos personagens. Nós quando contamos somos nós mesmos, com tudo o que temos e o que somos.

Contar histórias em hospitais ou para todos aqueles que têm pouca esperança na vida… O que significa?

Não só nestas situações os contos têm significado. As histórias funcionam como um “manual” para a descoberta para os mistérios da vida. Elas nos conectam com nossos anseios, medos, ansiedades, alegrias, desejos, frustrações… E isso significa que quando entramos em contato com estes relatos podemos mergulhar nos nossos próprios sentimentos e assim aprendemos a lidar com essas sensações que dão vazão às nossas próprias emoções. Contar e ouvir histórias significa partilhar um mundo simbólico, afetuoso e sagrado. Mas é claro que alimentar alguém que tem pouco esperança na vida com uma história é extremamente valioso para mim. Por isso, desde 2012, idealizei o projeto social “Jovens Narradores – Descobrindo Novos Horizontes”, o qual capacita, por meio de oficinas de arte, literatura e intercâmbio, alunos de escola pública do extremo Sul de São Paulo.

Você já sofreu algum preconceito com a profissão?

Não. Preconceito não, mas sinto que ainda há um desconhecimento sobre quem é o profissional que trabalha com a arte de contar histórias.

Qual foi o comentário mais inusitado que já ouviu enquanto contadora de histórias?

Comentário não me lembro, mas me lembro uma situação inusitada que se passou no aeroporto da cidade do México. Estava em conexão para a cidade de Zacatecas, onde eu iria participar de um festival de contadores de histórias. Estava sentada, observando os horários e também as pessoas que ali estavam naquela manhã fria. Quando de repente noto que uma mulher me olhava sem parar. Fiquei um pouco sem jeito e peguei um livro para ler. Logo a mulher sai do lugar dela e senta-se ao meu lado. Pergunta sem muita demora: – És contadora de histórias?

Eu olhei para ela surpreendida e respondi:

-Sim. Sou.

Ela olhou nos meus olhos e diz: -Sim, eu sabia! Tem cara de contadora de histórias. É urgente ouvir uma história! Conta-me uma, por favor.

Neste instante ouço anunciar o embarque para meu vôo. Respondo-lhe que era difícil fazer o que me pedia porque precisava embarcar. Mas ela levantou-se e foi comigo para a fila de embarque. Insistiu.

Senti que ela realmente queria e precisava, então contei-lhe uma história que me veio à cabeça na hora. Quando terminei entreguei minha passagem para a aeromoça e entrei na zona de embarque. Antes de descer o corredor que me levaria até pista olhei para trás e sorri. A mulher sorriu, acenou e tocou a mão “no coração” como quem agradecia e nunca mais a vi.

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Durante toda a sua trajetória de contadora de histórias, qual foi a situação que mais te marcou e você leva contigo todos os dias?

Tive tantas situações marcantes nestes 16 anos de carreira! Contar para crianças e jovens em Machu Picchu foi sensacional. A viagem que fiz pela Amazônia de barco foi muito importante para perceber o valor das pequenas coisas e me marcou demais. Contar em um castelo na Bélgica para um público imenso e incrível foi inspirador… Em uma igreja no México foi emocionante… Nossa, tantas coisas já passei e vivi que é difícil definir qual foi a mais emocionante ou a mais marcante. Todas as vivências ficam guardadas em mim e me fazem aprender a olhar a vida com olhos alegres e agradecidos por tantas oportunidades.

Para você, o que uma pessoa precisa para ser um contador de histórias?

Disponibilidade, gostar de histórias e de partilhar. Essas são as características essenciais. Porém, para quem deseja seguir a carreira profissionalmente é importante ler muito e estudar para aperfeiçoar a voz, expressão corporal e outros elementos técnicos.

Aos que têm interesse pela profissão e vontade de ser um contador de histórias, que dica ou conselho você daria?

Seja você mesmo! Não adianta tentar imitar alguém que ouviu contar ou tentar reproduzir os textos como um papagaio que decorou palavras. Cada um tem dentro de si tudo aquilo que precisa para contar histórias. O ser humano é um ser de comunicação! Basta, na minha opinião, buscar a voz do narrador que habita em cada um de nós.

About Bianca Garcia

Co-fundadora do Portal O Rio, Bianca Garcia administra, edita e produz conteúdo para o site e para as redes sociais. Com experiência em jornal impresso e mídia social, a jornalista formada pela FACHA é também graduanda de Letras/Literatura pela UFF e pós-graduanda em Gestão Estratégica da Comunicação pelo IGEC.

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