Akira Presidente: “Só ter dinheiro é feio, tem que ter respeito”

(Por Bianca Garcia e Juliana Torres)

Akira Presidente (Fotos: Juliana Torres)
Akira Presidente (Fotos: Juliana Torres)

Em uma dessas tardes ensolaradas do verão carioca, a equipe do Portal O Rio foi ao encontro do rapper Akira Presidente. Em um bar na Zona Sul, o rapper carioca, simpático e descontraído, conversou com a reportagem sobre sua trajetória no rap, suas influências, contou sobre sua amizade com Marcelo D2 e Stephan e até de onde surgiu a inspiração para o rap “Não vá”. Akira também falou sobre ZIRIGUIDUMBARULHODOIDO – seu mais novo EP que tem participações de músicos como Marcelo D2, Hélio Bentes (Ponto de Equilíbrio), Batoré (Cone Crew Diretoria), Faruck (Start Rap) – e como vê o mercado carioca. Sobre isso, a resposta é enfática: “O rap aqui é muito doido! A gente tem Rock in Rio que não toca rap, Viradão Carioca que não toca rap, réveillon na praia que não toca rap. Mas ninguém pode olhar mais pra gente e falar “ih, lá vem eles”. A gente movimenta milhões de pessoas, tem famílias que depende da gente, sustentamos muita gente para não ser levado a sério e não querer ser levado. A gente tem que reivindicar e querer o nosso espaço, se não vão sempre preferir alguém. Tem que chegar o momento do rap ser mais corporativo. A gente não pode gerar grana e não ter respeito. Só ter dinheiro é feio. Tem que ter respeito”.

Como começou sua trajetória no rap?
Eu era bem moleque e não tinha nem noção do que seria o rap. Eu ouvi o som com um amigo que treinava comigo no Fluminense, o PH. E logo depois eu vi um filme e foi aquela coisa… O som me pegou de uma maneira e eu me identifiquei muito com o visual. O estilo de vida, sabe qual é? A gente fala que quando você ouve rap, na hora você muda. Você fica mais largado, um pouco mais cheio de marra – não cheio de marra agressivo -, mas um estilo urbano. Você passa a saber que é propriedade mas aquilo também te pertence. O rap me passou essa visão e não só o som. Usar a roupa todo mundo usa, mas como você fica dentro dela?

Eu tocava funk com a galera do morro, eu ia pro baile. Não é que eu não me identificava com aquilo. Mas o rap foi uma outra… É um bagulho muito doido. Eu não tava preparado pra aquilo na hora. Era só eu e meu irmão que conhecia, que curtia, a galera não ouvia rap. Era aquele relacionamento ali, sempre esteve do lado. Horas mais intensas, outras menos. Mas chegou uma hora que eu conheci pessoas que me levaram para festas de rap. Foi quando eu conheci o Zoeira. Aí conheci outras pessoas que ouviam o mesmo som que eu, que se identificava com aquilo que eu me identificava. Não era niguém estranho que usava roupa larga. O cara usava a mesma roupa que eu, ouvia o mesmo som que eu, trocava a mesma ideia. Foi um fator levando a outro, levando a outro que chegou em um tempo que o rap fazia parte de mim. O som, os amigos, as influencias, a maneira de me vestir… E aí para passar a rimar foi bem natural. Eu não sabia que eu fazia. Uns amigos meus tinham grupo de pagode e no ensaio dos caras eu fazia um freestyle. E aí um amigo meu que já era do rap viu e perguntou: como é que tu diz que tu não rima? Aí eu falei: eu ando com vocês não vou falar que eu rimo, é meio arrogante (risos). Aí passei de “um moleque que curtia o rap” pra virar um Mc, “alguém que fazia rap”. Dei sorte de pessoas que entraram no meu caminho no momento que eu tava começando que já tinha um tempo ali. Conheci o Marechal, ele que me ensinou a fazer rap, bem dizer. O Shawlin, tinha o Quinto Andar… Era uma galera muito a frente e próximo daquilo que eu pensava com o rap, de expressão e composição. Quando fui ver eu fazia show de freestyle e nem sabia como, eu fui o primeiro campeão da batalha. Tudo era meu, só que eu não sabia como expressar daquela maneira, além de ouvir e me vestir. A partir do momento que eu achei a maneira certa foi fluindo e foi tudo bem tranquilo. Sabe aquele dia que tu acorda e fala “não quero ser Mc, eu sou. Agora como é que a gente vai fazer?”. Nessa época eu estava me formando em advocacia, tranquei o rap, eu trabalhava em um escritório e não podia largar, precisava da grana com minha família e tava muito perto de me formar, e eu gostava de advogar. Então eu não achava justo eu pegar uma rapaziada que já trabalhava com rap e brincar com o sonho dos outros. Eu tinha que me formar, tinha que ver minha vida, o cara não podia depositar o sonho dele em mim e eu não retribuir. Eu dormia 2h por dia, trabalhava de 9h às 18h, faculdade ate às 22h, ia em casa, comia, trocava de roupa e rap. Show, gravação, trocar ideia… Eu precisava treinar, evoluir e entrar no ritmo. Era tudo muito intenso. A gente não tinha muito show, mas tinha o convívio. Era freestyle 24h por dia, literalmente. A gente andava, parava, escrevia uma rima no caderno, a gente estudava… Isso foi mais ou menos em 2000.

Você disse que começou bem moleque. Foi com quantos anos esse encontro com o rap?
Ah, com uns 12 anos. Mas assim, eu peguei o rap para mim como gênero musical. Não vou enganar ninguém e dizer que com 12 anos já vivia como Mc e a cultura… Não! Foi um som que me identifiquei muito, abriu uma outra parte da minha mente que estava fechada. Só que eu não sabia como aquilo ia fluir. Eu não conhecia ninguém que ouvia a mesma música que eu. O rap era uma célula, hoje está começando a criar corpo, mas era muito pequeno. Se você não conhecesse ninguém que ouvia você ficava sozinho e não trocava muita ideia. Na novela não tocava rap. Era uma coisa que eu tinha minha, mas não era comum. Mas com 12 e 13 anos eu já ouvia rap.

Cite três nomes brasileiros e três gringos que foram suas referências?
Gringo: Nas, Notorious B.I.G e o Jay-Z. Cada um no seu momento. Brasileiro, ouvi Planet Hemp até cansar, Marcelo D2 no solo, Racionais, Thaíde. Por mais que eu não ouvisse tanto o rap nacional quando comecei a ouvir rap, era uma outra formação, eu ouvi muito os caras. Não tem como não ser referência.

E a parceria com o Marcelo D2. Como surgiu?
Cara, assim, quando se fala “um dia eu vou escrever um som com o fulano de tal”. É aquele sonho de moleque, de quem tá começando, mas eu nunca coloquei como plano de carreira. Eu sempre ouvi o cara, e já falei isso para ele, eu não queria ser nenhum deles, eu queria estar ali com eles. Pensava: andar com os caras deve ser… Mas na verdade tudo foi caminhando muito naturalmente na minha vida.

O Stephan [filho de Marcelo D2] é meu irmãozinho de muito tempo. Eu falo para o Marcelo [D2] que o Stephan é meu irmão e ele não é o meu pai. Eu conheço o Stephan desde muito novo e a gente sempre foi se ajudando, na amizade. Quando comecei a botar o rap a sério ele já conhecia bastante. A gente era um bando de moleque, cada um na sua faixa etária, começando a vivenciar aqueles primeiros passos. Tirando uma noite para fazer um som e aí no dia seguinte voltar pra gravar. Com isso o Stephan passou a frequentar muito minha casa e nessa a gente ia pra show junto. Meu pai entrava com o Stephan na boate, porque ele era muito novo e então ficava como o responsável. E aí o Marcelo é pai, e via com quem o filho estava andando. Ele me conhecia de vista e um dia paramos pra trocar uma ideia fora do “coé coé”. Começamos a trocar ideia e a amizade foi fluindo. Virei muito amigo do Marcelo, e o Stephan é o elo de ligação disso tudo. Daí para fazer música, na real, foi só ter o momento certo. Apareceu “Nada pode me parar”, o disco dele, e ele me chamou um dia para ir ao estúdio. Na hora de trocar ideia, mostrei um pedaço de rima, ele gostou e aí foi meio que jogar bola. Só não vacilar que tu acerta (risos). Nessa a gente fez bastante música. E aí eu chamei ele para fazer meu EP.

Quer melhor do que você criar uma ideia de conquistar o mundo através da música? É o caminho inverso do resultado. Todo mundo quer se dar bem naquilo que faz. Mas se eu parar com o Marcelo para fazer um som com o D2 pra me dar bem, vai ser aquela música que ou dura seis meses e você vai gastar muito dinheiro para ela durar seis meses ou você vai gastar o dinheiro que tiver que gastar e ela vai durar pra sempre. Porque a música é boa, e quando é boa não tem validade. A música vai falar aquilo que você quer ouvir para o resto da sua vida.

Hoje você vive de música?
Graças a Deus. 10 empregos dentro da música, né? A gente gerencia uma marca, trabalho na minha produção, trabalho como compositor, como professor em um projeto… Tudo que for próximo daquilo que faço como Mc e dê para aproximar… Eu vivo de música, mas não fico em casa esperando um e-mail ou telefone… Porque show é só um pedacinho. Acho que fazer show é a parte mais fácil do trabalho todo. Tudo é muito cansativo, tudo emana muita atenção…

Como você vê o mercado do rap no Rio?
O rap aqui é muito doido! A gente tem Rock in Rio que não toca rap, Viradão Carioca que não toca rap, réveillon na praia que não toca rap. Mas se, hoje, você colocar um top 5, três ou quatro vão ser do Rio, em faturamento, em visualização… São Paulo é muito forte. Só que hoje o rap carioca está mais em evidência. Não quer dizer que seja melhor ou pior. É o momento! A gente está estruturando hoje um mercado. Em São Paulo já é uma cultura. Se um dia a gente conseguir copiar, no bom sentido, o que os nossos amigos de São Paulo fazem pra dar certo, e dá certo lá, e adequar ao nosso que está acertando a gente vai longe.

Mas ninguém pode olhar mais pra gente e falar “ih, lá vem eles”. A gente movimenta milhões de pessoas, tem famílias que depende da gente, sustentamos muita gente para não ser levado a sério e não querer ser levado. A gente tem que reivindicar e querer o nosso espaço, se não vão sempre preferir alguém. Tem que chegar o momento do rap ser mais corporativo. A gente não pode gerar grana e não ter respeito. Só ter dinheiro é feio. Tem que ter respeito.

Você diria que ser rapper no Rio e no Brasil é difícil?
É difícil demais. Mas acho que é tão difícil quanto qualquer outra parada. O mercado de trabalho está saturado. As pessoas estão fazendo três faculdades. As profissões são desvalorizadas e ninguém recebe muito bem. Acho que o trunfo de quem vive de música é que não tem um salário fixo. Eu não tenho um fixo há um bom tempo. Todo mês a gente dá um jeito… Tem mês que tá tranquilo e tem mês que não. Quem vive do salário fixo dificilmente consegue modificar muito o que ele tem no momento, porque é difícil as empresas darem um aumento. Essa é a diferença. Quando encontro com amigos meus da outra época, fico feliz pelos que estão bem, mas vejo que é tão difícil pra eles quanto para mim. Só que eu ôo de bermuda nesse calor desgraçado, eles estão de terno (risos).

E o rap quando comparado a outro estilo musical?
Vou te ser sincero: a nossa diferença para outros gêneros musicais é que não existe banquinho e violão pra rap. A gente não tem isso e se for pensar em oportunidade, pensando que em qualquer lugar você põe a sua música para tocar, é mais difícil.

Como é o seu processo de criação?
Eu gosto muito de estar bem. Minha inspiração vem junto com o meu estado de espírito, da minha felicidade. Toda vez que eu parei para escrever “puto” sobre algo que eu estava “puto”, não saiu nada. Mas já escrevi bem sobre estar “puto”, porque eu lembrava como era aquela sensação. A batida também me ajuda muito, penso assim: aquilo tem que ser meu. Uma coisa se encaixa com a outra e vai. Há casos também que penso em uma coisa, penso muito, fico com aquilo na cabeça até achar a melhor maneira para entrar com aquela rima ou aquela melodia. Tem horas que vem e “pum” é isso. Depois que encaixa eu vou direto. Toda vez que eu fico em dúvida, dou uma lembradinha de como eu estava no dia em que escrevi e pensei, e uso para inspiração nos momentos que não tenho muita ideia, pra trazer aquela sagacidade. Rimar é fácil. Maneiro é fazer aquela rima que faz o cara pensar “que cara filho da puta” (risos). O difícil é falar sobre a mesma coisa de forma diferente.

Fãs querem saber: “Não vá” foi escrita para alguém?
Ivete Sangalo (risos). Sério! Na real, um dia eu estava em casa sentado e comecei a imaginar um som que eu faria com a Ivete ou com uma Ivete da vida. Comecei a viajar, pensei no som, na melodia. Não era a Ivete mesmo, mas essa foi a vibe. Não foi nada pessoal, além de ser direcionado ao dia que eu e a Ivete fizer um som junto (risos). Tem pedaços de vivência, mas é o que eu disse: já estive muito feliz e falando sobre estar triste. Esse foi um desses. Não perdi ninguém, não sofri e nem fiz ninguém sofrer tanto pra inspirar esse som. Mas fico muito feliz de ter feito.

Como você define “ZIRIGUIDUMBARULHODOIDO”?
Eu me identifiquei muito com o resultado. A palavra que defino é honesto! A gente não prometeu nada além daquilo que a gente não podia cumprir ali. Música boa com participações boas. E sendo honesto, “tá bom pra caralho” (risos).

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